Grande Exposição de Gil Vicente

Por Susana Jacobetty. Fotografia João Bettencourt Bacelar

A maior exposição realizada até hoje sobre Gil Vicente, Portugal e Espanha nos primórdios do Teatro Europeu, estará patente no Museu Nacional do Teatro e da Dança até 28 de Março de 2024.

Abílio de Mattos e Silva
Desenho para cenário para a ópera, de Gil Vicente, 1956

“Em 1502, com o Auto da Visitação que Gil Vicente apresenta à família real portuguesa, o Teatro passa a integrar os hábitos culturais da vida quotidiana, tornando-se numa arte próxima e continuada que, durante os quinhentos e vinte anos seguintes, irá revisitar, com frequência, a obra daquele seu grande impulsionador. É dessa renovação permanente dos olhares sobre o seu teatro que esta exposição dá conta.
(…) Rememorar os espectáculos feitos a partir das peças quinhentistas é recuperar um repositório de ideias e de leituras no qual diversos artistas, ao longo dos tempos, entregaram o seu saber e colheram inspiração.(…) Celebremos em conjunto, então, os primórdios do teatro moderno europeu, olhando para Gil Vicente e autores coevos, num percurso que nos conduz a uma época de descobertas e nos impele, também à exploração de um futuro a construir, num movimento múltiplo de reconhecimento e de reafirmação de valores a preservar”.

ente e autores coevos, num percurso que nos conduz a uma época de descobertas e nos impele, também à exploração de um futuro a construir, num movimento múltiplo de reconhecimento e de reafirmação de valores a preservar”.

Nuno Costa Moura
Diretor do Museu Nacional do Teatro e da Dança

Programa para o espetáculo do V.Centenário de Francisco Ribeiro
S.N.I. – Secretariado Nacional de Informação 1965. Museu Nacional do Teatro e da Dança (MNT 210949)

A exposição, amplamente abrangente e transversal com uma clara intenção de um enquadramento histórico, ocupa todos os pisos e salas do museu e conta com mais de 450 objetos, como livros, pinturas, fotografias, figurinos, ilustrações, etc. Está dividida por tipologias de peças de Gil Vicente, como farsas, comédias, tragicomédias e monólogos, caracterização do que podia ser a corte na época, o factor religioso, entre muitos outros aspetos.

Trono do primeiro teatro gravado pela RTP, onde o ator Ruy de Carvalho o Vaqueiro, no Auto da Visitação.

No século XVI, o teatro funciona com o financiamento de patronos, maioritariamente ligados à expansão marítima portuguesa e espanhola, para quem os espectáculos são criados. Gil Vicente trabalha 34 anos para a corte e esse constante apoio, permite que o seu trabalho evolua ao longo dos anos. Noventa por cento das suas peças incluem música, canto ou dança, o que será algo muito presente nos serões da corte, sendo a composição de algumas músicas e a coreografia de alguns bailados de sua autoria.
 
 O primeiro dia de trabalho de Gil Vicente foi a oito de Junho de 1502, com a peça O Monólogo do Vaqueiro ou Auto da Visitação, realizado para o nascimento do príncipe e futuro rei D. João III. Foi apresentado nos aposentos da rainha D. Maria, rainha consorte do rei D. Manuel I, na noite seguinte ao nascimento do príncipe, no antigo e inexistente Paço da Alcáçova, local onde hoje se encontra o Castelo de São Jorge e alguns vestígios dessa época.

Fotografia da recriação de como poderia ter acontecido a cena em que Gil Vicente terá representado o Auto da Visitação à rainha D. Maria, na casa do escultor António Teixeira Lopes, em Vila Nova de Gaia no ano de 1912, com enecenação de Afonso Lopes Vieira.

Desenho de cenário para o espetáculo Monólgo do Vaqueiro, de Gil Vicente, encenação de Francisco Ribeiro. Teatro do Povo 1936 . Museu Nacional do Teatro e da Dança

Figurino para o espetáculo Auto da Alma, de Gil Vicente, encenação de José Almada Negreiros. Companhia Rey Colaço-Robles Monteiro . Museu Nacional de arte Contemporanea

Figurino para o espetáculo Auto da Alma, de Gil Vicente, encenação de José Almada Negreiros. Companhia Rey Colaço-Robles Monteiro . Museu Nacional de arte Contemporanea

Figurino para o espetáculo Auto da Alma, de Gil Vicente, encenação de José Almada Negreiros. Companhia Rey Colaço-Robles Monteiro . Museu Nacional de arte Contemporanea

Em Portugal, as peças de Gil Vicente mais representadas são o Auto da Barca do Inferno, o Auto de Inês Pereira e o Auto da Índia, em Espanha é a tragicomédia de D. Duardes, talvez porque para além de ser considerada uma peça perfeita, foi originalmente escrita em espanhol.

Em Portugal, a imprensa surge em 1641 e, vem a ter um papel fundamental na preservação e difusão do texto dos autores. Embora Gil Vicente ainda tenha tido a oportunidade de ver em vida alguns dos seus textos publicados em folhetos soltos, serão mais tarde os seus filhos, Luís e Paula Vicente, que irão compilar a sua obra, em 1562. Haverá uma segunda compilação em 1586, mas será muito danificada pela censura.
 
A censura na altura da Inquisição proibiu muitos textos de Gil Vicente, o que levou ao seu esquecimento durante algum tempo. É recuperado por Almeida Garrett, numa espécie de efervescência romântica das raízes da nacionalidade, escrevendo ele próprio uma peça com o nome Um Auto de Gil Vicente, que suscita uma maior atenção e leva a que este autor medieval, venha posteriormente a ser reconhecido como o pai do teatro português. 

Este livro, pertencente ao acervo da biblioteca do Palácio Nacional de Mafra, mostra a censura praticada pela inquisição. Esta peça de Gil Vicente foi proibida e não se podia ler sem licença.

“Tentámos fazer uma exposição inclusiva. Por um lado tem representado o contexto histórico do desenvolvimento do teatro de Gil Vicente e dos seus contemporâneos na Península Ibérica e, por outro lado, a fortuna cénica da sua obra ao longo dos séculos, sobretudo nos séculos XIX a XXI. Tentámos abranger todo o território, demonstrar que companhias de teatro foram atualizando o seu repertório com obras do autor, proporcionando novas visões e interpretações dos textos, encenação, atores. Mas também a atualidade que um clássico convoca na sociedade e no seu tempo”.
José Camões, curador da exposição

Teresa Milheiro, marionetas da série #Passagem para um outro lado” 2004-2008. Coleção particular.

Gil Vicente, que se pensa ter nascido em Guimarães por volta de 1465 e partido em 1536, foi dramaturgo e poeta e, o maior representante da literatura renascentista no nosso país. Autor de mais de quarenta peças, é hoje considerado o fundador do teatro em Portugal.