História do Cão de Água Português

Cão de Água a nadar em função para o seu dono, na pintura flamenga de autor desconhecido, Chafariz d’El-Rey, Lisboa 1570-80. Coleção Berardo, Fotografia Rodrigo Bettencourt da Cãmara.

O lobo foi domesticado pelo homem por volta de 15 mil a.C. A partir desse momento desenvolveram- se várias raças de cães, que evoluíram através dos séculos. Em Portugal, a presença de cães remonta ao período Neolítico. O Cão de Água Português é uma das raças mais antigas do mundo, apesar da sua origem não ser consensual. Para Rodrigo Pinto, criador de cães de água há quase duas décadas, terá sido o povo fenício – que habitou o mediterrâneo entre 1500 e 300 a.C. – o responsável pela introdução de cães com origens ancestrais asiáticas e africanas no território onde se viria a situar o nosso país.

Foram encontrados em Portugal vestígios de cães de companhia e de apoio à pesca – os Canis Familiaris Aquaticus – que datam do século VIII. Nos Zendavesta, livros sagrados dos antigos Persas, o Cão de Água era o mais apreciado de todos os cães. Existem também referências

a este cão na civilização romana, o denominado Canis Leo, o Cão Leão, designação que tinha por base o corte de cabelo em juba da Antiguidade, que subsiste até aos nossos dias.

O estalão do Cão de Água foi oficializado em 1938. Nos anos 70, o número de exemplares caiu drasticamente, o que levou o Guinness Book Of Records a considerar esta raça como sendo a mais rara do mundo, em 1981. De inteligência superior, nobre e vigoroso, o Cão de Água Português é hoje património vivo, genético, histórico e cultural de Portugal.

Durante séculos, o Cão de Água acompanhou o homem nas suas embarcações. Cão de reis e pescadores, viajou nas caravelas da expansão marítima portuguesa e fez parte das tripulações da Invencível Armada, em 1588. Era usado como correio entre as naus ou para missões em terra. No século XVIII foi utilizado para a caça, chegando a ser o cão de eleição da nobreza portuguesa.

Cão de Água a nadar com corte de Leão, na gravura do desembarque do Augustissimo Sr. D. Miguel, Cais de Belém 1828. Museu de Lisboa.

 

No final do século XIX, o rei D. Carlos teve 2 exemplares, o Tejo e o Sado, que acompanhavam a família real durante as férias e a bordo do iate Amélia. São várias as fotografias tiradas pelo monarca aos “Cães de Bordo”, como lhes chamava.

Já no século XX, o lugre Creoula, navio de instrução da Marinha Portuguesa, passou a embarcar cães de água portugueses, que eram tidos como excelentes embaixadores nos portos onde o navio atracava e uma ótima companhia a bordo. O costume foi iniciado com Vasco Bensaúde, o responsável pela preservação da raça nos anos 30, que viajava com os seus cães até aos Açores a bordo do Creoula. Espuma, uma cadela muito estimada nascida em 1990, esteve a bordo durante 15 anos, rendida depois por Giba da Pedra da Anixa, levada para o navio pelo Comandante João Silva Ramos.

“O sonho de Galatea” de Júlio Quirino. Acrílico em tela, 70x100cm, 2017.

Fotografias da autoria do Rei D. Carlos, que integram dois painéis que pertencem a um conjunto de 22 painéis de madeira, forrados a papel de veludo preto, com moldura de madeira pintada de “fingido” de madeira, protegidos com vidro, com composições de várias fotografias. Que provavelmente as terá montado desta forma, encontrando-se muitas delas autografadas e datadas. No verso, uma etiqueta impressa a preto com as armas reais e a inscrição “Quarto de S. M. El Rey” e uma etiqueta manuscrita a preto “Cidadella de Cascais”, residência de verão da família real. Fotografias datadas de 1897-1899. Palácio Nacional da Ajuda.

Fotografia tirada e assinada pel Rei D.Carlos 1897-1899 Palácio Nacional da Ajuda No 64687 painel 21

Fotografia tirada, legendada e assinada pel Rei D.Carlos 1897-1899 Palácio Nacional da Ajuda No 64685 painel 21.

“Eu não devo terminar esta notícia sem falar de dois companheiros, dos quais não nos devemos esquecer, uns exemplares deveras bonitos; venho falar-vos de “Tejo” e “Sado”, os dois cães de pesca do yatch. Esses cães, de uma raça portuguesa absolutamente especial e destinada à pesca, embarcados a bordo da canoa O Espinhel, ao mesmo tempo que os homens,e tal como nas pescas às grandes profundidades normalmente os peixes, quando se levanta o aparelho, se soltam dos anzóis e vêm à superfície, mortos ou longe disso, assim que os cães os veem ou que lhes são mostrados, eles atiram-se à água e trazem-nos imediatamente a bordo. Eu vi um desses cães trazer de mais de 200 metros de distância um Aphanopus de mais ou menos um metro de comprimento, e o fazer tão delicadamente que a pele desse peixe que é tão fina não estava nem arranhada.”

Relatório escrito pelo Rei D. Carlos sobre as campanhas onde fala dos seus cães de àgua que seguiam a bordo e do importante papel que desempenhavam na colheita de exemplares. Aquário Vasco da Gama.

Tejo e Sado, cães de àgua de D. Carlos, nadando acompanhados do tratador. 1900 Cascais, Arquivo Hitórico Municipal de Cascais.

Tejo e Sado no iate Amélia. Museu da Marinha, coleção Henrique Maufroy de Seixas.

O Cão de Água Português é uma raça primitiva, com milhares de anos de apuramento. As suas cores são o preto, o castanho e o branco. Em 1938, também se considerava o cinzento. Os castanhos e pretos não podem ter mais de 30% de branco. Os brancos têm de ser totais, com as mucosas pretas. A pelagem pode ser wavy, ondulado, half curly, meio encaracolado e curly, caracol. A nível genético, o cruzamento de dois cães de água pretos pode resultar numa ninhada totalmente castanha. E o cruzamento de um exemplar castanho com um preto pode dar origem a uma ninhada completamente preta. Não se devem cruzar dois castanhos porque há probabilidade de surgirem problemas a nível genético, na coloração e na pelagem. Para nascerem com a pelagem branca tem de haver uma combinação de linhas genéticas até à quarta geração, tanto do lado do pai como da mãe.

Daniel Emery Pratt da marinha mercante norte americana com o seu Cão de Àgua Português, Boston 1840.

A predominância na zona sul do território nacional deveu-se, em parte, à funcionalidade da raça associada a um determinado tipo de artes e aparelhos de pesca, técnicas desempenhadas através de pequenas – mas importantes – tarefas. “Estes cães bem treinados conseguem mergulhar rapidamente e desprender as redes dos peguilhos quando são aladas, salvando as nossas colheitas”, afirma um pescador de Olhão no livro O Cão-d’Água de Margarida Ribeiro, em 1972.

Companheiros de valor inestimável para os pescadores, tanto na faina como na guarda e defesa das embarcações, são cães que aprenderam ao longo de séculos o que têm que fazer. Faziam serviços de salvamento e entrega de mensagens, pressentiam o perigo de tubarões na água, alertando a tripulação através da recusa em mergulhar. Ajudavam na pesca de cerco e no norte foram ainda utilizados na pesca do salmão, do sável e da lampreia. Na década dos anos setenta, a sua escassez levou a que algumas embarcações alugassem os poucos cães de água que ainda trabalhavam.

Cão de Água com corte de Leão, Livro Famine Prevenction, 1621.

O corte tradicional do Cão de Água consiste numa tosquia funcional, com fundamentos muito antigos, efetuada até à primeira costela. A parte de trás é tosquiada de forma a facilitar o necessário desembaraço nos seus movimentos. Se o exemplar tiver o pelo comprido, pode enfiar uma pata no cabelo ao nadar para os lados. A cauda tem uma bandeira que é usada como leme. O focinho é tosquiado para evitar que o pelo comprido lhe tape os olhos quando mergulha. Contudo, é conveniente manter a franja a fim de proteger os seus olhos dos raios solares. Tem casaco por uma questão de proteção térmica. Os cães de água são nadadores exímios e mergulhadores resistentes, atributos duma vocação hereditariamente transmitida. Têm no Algarve o seu solar, embora tenham estado presentes em todo o litoral português.

Cão de Água Português oferecido por Vasco Bensaude a um amigo de Barcelona que fez a carroça para a sua neta brincar.

Revista da Medicina Veterinária, Algarve 1938.

“CADELA D’ÀGUA – ERGUIDA SÔBRE A AMORADA,GUARDA O BARCO, ATRACADO AO CAIS, QUAL SENTINELA VIGILANTE. BELO EXEMPLAR DA VARIEDADE DE PÊLO LANOSO.”

Em dias de neblina eram farol, davam sinais da proximidade da terra, barcos e pessoas. Eram capazes de mergulhar alguns metros de profundidade, recuperavam cabos e objetos, alertavam o pescador quando sentiam os peixes nas redes e apanhavam os que se soltavam.

O contacto direto com o homem ao longo dos séculos fez com que o Cão de Água desenvolvesse e aperfeiçoasse particularidades e comportamentos únicos. Cães de trabalho multidisciplinar devido ao seu grande poder de adaptação, reconhecida afetividade, espírito de sacrifício e extrema inteligência, eram considerados preciosos pelos pescadores enquanto membros da tripulação.

Por isso tinham direito ao seu quinhão, como todos os marinheiros. Uma parte era paga em peixe, destinada à sua alimentação. Uma quarta parte era paga em dinheiro resultante da venda da captura e guardada num pote para assegurar a sua posterior reforma junto de uma família escolhida pelo comandante, que também decidia qual o tripulante responsável pelo bem estar do animal na embarcação.

Capitão Francisco da Silva Paião, a bordo do histórico Argus, em viagem para Portugal com o seu Cão de Água Zulu, 1965.

O Leão, o Cão de Água Português que viria a ser o cão modelo para o estalão da raça, foi descoberto por Vasco Bensaude no Algarve em 1936. Foi pai de 9 ninhadas e de 35 cachorros com o afixo Algarbiorum entre 1937 a 1942.

Selo CTT 1981, Museu Municipal de Portimão.

Vasco Bensaude e Leão. Livro sobre a Exposição: Vasco Bensaude da Cinofilia à Caça de Gualter Furtado.

AGRADECIMENTOS

Aquário Vasco da Gama, Arquivo Municipal de Cascais, Biblioteca dos Açores, Biblioteca Nacional, Comandante João Silva Ramos, Fundação Berardo, Maria Fernanda Costa, Marinha Portuguesa, Museu da Marinha, Museu de Lisboa, Museu de Portimão, Museu do Mar, Palácio Nacional da Ajuda, Pilar Bello, Teresa Pires Marques, Yasmin Santiago.